Marco António: “Entre a vida e a morte, escolhi viver”

Marco António: “Entre a vida e a morte, escolhi viver”

Aos 38 anos, Marco António ouviu uma frase que mudaria a sua vida para sempre: tinha uma doença rara e, no pior cenário, apenas três meses de vida. O que poderia ter sido o início do fim tornou-se, afinal, o começo de uma luta marcada pela resiliência, pela força interior e por uma decisão clara – não desistir. Mais de duas décadas depois, continua a viver com a doença, enfrentando cada dia como uma vitória. Esta é a história de quem recusou aceitar uma sentença e escolheu, todos os dias, continuar a viver.

AN – Tinha 38 anos quando foi ao médico. O que aconteceu exatamente?
MA – “De uma maneira muito simples… como sabe, eu andava muito na estrada, conduzia muito, e comecei a ver as placas de trânsito desfocadas. E pensei: ‘será que com 38 anos já preciso de óculos?’ Achei que era só isso. Entretanto, fui à minha médica de família, disse-lhe o que se passava e ela mandou-me fazer análises. Para mim até era novidade, porque não era pessoa de fazer análises. Quando vieram os primeiros resultados, ela disse: ‘há aqui qualquer coisa que não está bem’. Repetimos as análises… e confirmou-se.”

AN – E como foi esse momento seguinte?
MA – “Ela disse-me logo: ‘isto não é comigo, vou ligar para o hospital’. Fui imediatamente para lá. Cheguei às urgências, fizeram-me um mielograma… e quando vi aquele aparato todo pensei: ‘mas o que é que eu venho aqui fazer?’ Depois veio o diagnóstico: policitemia vera. É um cancro na medula óssea, uma doença mieloproliferativa.”

AN – Como reagiu ao diagnóstico?
MA – “Fiquei com o chão a desaparecer. A palavra cancro tem um peso enorme. Ainda por cima é uma doença rara… e eu tinha 38 anos.”

AN – Chegou a receber uma previsão de vida muito dura…
MA – “O médico disse-me: ‘se o organismo não reagir, estamos a falar em três meses de vida’. Isto dito assim… foi um choque enorme.”

AN – O que sentiu nesse momento?
MA – “Um escuro muito grande. Em segundos, passou-me a vida toda pela cabeça. Lembrei-me da minha filha e pensei: ‘calma, eu tenho 38 anos… isto não pode ser assim’. Disse para mim: ‘o organismo vai reagir, tem que reagir’.”

AN – Foi aí que começou a lutar?
MA – “Sim. Comecei a criar objetivos. Primeiro a minha filha. Depois fui traçando metas… e fui conseguindo. Cada dia que passava era uma vitória.”

AN – Como foi viver com a doença ao longo dos anos?
MA – “Não havia medicação. Era fazer flebotomias, tirar sangue regularmente. Cheguei a tirar litros de sangue… e depois ia trabalhar normalmente. Ninguém sabia.”

AN – Teve momentos de revolta?
MA – “Sim. Primeiro é ‘porquê eu?’. Depois vem a negação… e depois a aceitação. E essa é a fase mais importante.”

AN – O apoio foi importante?
MA – “Fundamental. Se nos isolamos, é muito complicado. Temos que falar, partilhar.”

AN – Hoje, como encara a sua condição?
MA – “Estou bem resolvido com isso. Não tenho medo. Quero viver… mas quando chegar o dia, tudo bem. Só não quero sofrer.”

AN – A sua atitude fez diferença?
MA – “A doença não mudou… mas a forma como lido com ela mudou tudo. Acredito que ajudou a atrasar.”

AN – Alguma vez pensou desistir?
MA – “Já. Houve um momento muito complicado… mas dei a volta.”

AN – Que marca quer deixar?
MA – “Quero que digam que fui um lutador, um sonhador… que acreditei em mim.”

AN – Que mensagem deixa?
MA – “Não tenham medo. Não se fechem. Cada minuto de vida é uma vitória.”