Opinião: “Proteger demais também é prejudicar”

Opinião: “Proteger demais também é prejudicar”

Por Leonor Crucho

Atualmente fala-se muito de segurança, proteção e controlo quando se trata dos mais jovens. Mas quase não se fala das consequências disso. E a verdade é que há uma questão que me inquieta: estarão os jovens de hoje a crescer menos preparados para a vida?

Enquanto estudante na área das ciências do desporto, não consigo ignorar aquilo que observo: menos autonomia, menos capacidade de lidar com a frustração, menos iniciativa. Até em movimentos básicos como correr, andar ou saltar, muitos jovens revelam dificuldades motoras preocupantes. Ao fim de cinco minutos de brincadeira, já estão cansados, desmotivados, sem interesse. Como é possível chegarmos a este ponto? Aquilo que deveria ser natural nas idades mais jovens tornou-se, quase, exceção.

E isto não aparece do nada. Há cada vez mais evidência de que o desenvolvimento físico, emocional e social está diretamente ligado à forma como os jovens exploram o mundo, enfrentam desafios e, sobretudo, lidam com o erro.

E aqui entra um ponto que, na minha opinião, é central: o medo.

Os pais de hoje têm mais informação do que nunca e, paradoxalmente, parecem ter também mais medo do que nunca. Medo de deixar os filhos sair sozinhos, medo de os deixar falhar, medo de os expor ao risco. Mas será que estamos a confundir perigo real com desconforto? Muitas vezes, esse medo acaba por ser transmitido, mesmo que inconscientemente, às crianças, tornando-as mais inseguras, mais dependentes, mais limitadas.

Cair, correr, saltar, resolver problemas, tudo isto faz parte do crescimento. Não é um problema. É o processo. E ao tentar eliminar estas experiências, estamos, sem querer, a eliminar oportunidades essenciais de desenvolvimento.

Um jovem que nunca teve de lidar com o imprevisto dificilmente saberá reagir quando ele surgir. Um jovem que nunca tomou decisões sozinho terá sempre dificuldade em assumir responsabilidades. E um jovem que nunca caiu… provavelmente não sabe levantar-se. Ou pior: um jovem que cai e é imediatamente levantado aprende que não precisa de tentar sozinho.

No desporto isto é evidente. Nenhum atleta evolui sem errar, sem falhar, sem sair da zona de conforto. O desenvolvimento acontece precisamente nesse espaço de tentativa e erro. E na vida, no fundo, não é assim tão diferente.

Não estou a dizer que os pais não devem proteger, claro que devem. Mas proteger não pode significar, controlar tudo. Há uma linha muito ténue entre cuidar e limitar. E tenho a sensação de que, muitas vezes, estamos a ultrapassá-la.

A verdade é que o “perigo” que tanto se tenta evitar nem sempre é perigo real. Muitas vezes, é apenas desconforto, incerteza, crescimento. E isso não se evita, vive-se. Todos nós passámos por esse processo.

E eu pergunto: se fomos tão felizes enquanto jovens, a cair e a levantar, a jogar à bola no bairro, a rasgar as calças, porque estamos agora a privar os mais novos disso? Como diz o Professor Doutor Carlos Neto: “Libertem as crianças.” Deixem-nas sair da bolha.

Enquanto jovem, acredito que a independência não começa aos 18 anos. Começa muito antes, na primeira vez que nos deixam ir, errar, decidir, tentar resolver um problema sozinhos. Porque é nesses momentos que começam realmente a crescer.

Porque é aí, no chão, que aprendemos a levantar-nos sozinhos. E talvez seja exatamente isso que esteja a faltar a muitos jovens hoje.

Sou jovem e quero fazer parte da mudança. Quero ajudar as crianças de hoje a evoluir, a tornarem-se mais capazes, mais autónomas, mais preparadas. Não me conformo com o sistema atual. Os jovens precisam de mais liberdade, mais responsabilidade e mais espaço para crescer.

Leonor Crucho