Com 37 anos, Telma Pires viu a sua vida mudar de forma inesperada. Mãe, trabalhadora e apaixonada pelo fado, enfrentou um problema de saúde grave que a obrigou a tomar uma decisão difícil – colocar um dispositivo cardíaco para evitar o risco de morte súbita. Entre o medo, a negação e a coragem, encontrou no filho a força para avançar. Esta é a história de uma mulher que descobriu, na dor, uma força que não sabia que tinha.
AlbiNotícias – O que a levou ao hospital?
Telma Pires – “Este ano tive que fazer uma cirurgia… eu comecei com um cansaço muito grande, uma fadiga enorme. Cheguei a um limite em que já nem conseguia ir à casa de banho sozinha. Andei sempre a aguentar, tomava medicação, tentei evitar ao máximo ir ao hospital… mas houve um dia em que não consegui mais e tive mesmo que ir.”
AN – O que lhe foi diagnosticado nessa altura?
TP – “Tive uma pneumonia gravíssima no pulmão do lado direito, completamente afetado. E juntamente com isso, eu tenho problemas cardíacos… faço muitas miopericardites. Cada vez que tenho uma infeção, ela vai diretamente para o coração.”
AN – E depois acabou por ir para Lisboa…
TP – “Sim. Como sou seguida lá, liguei ao médico e ele disse-me: ‘tem que vir já para cá’. Eu ainda disse que não queria ir para outro hospital, porque tinha acabado de sair de um… mas ele insistiu. Fui lá e ele disse-me que tínhamos que colocar um CDI cardíaco.”
AN – Aceitou logo essa decisão?
TP – “Não. Eu disse que não queria colocar o aparelho. Sabia o que era, tenho familiares com isso… não é agradável, tem muitas limitações. Estava em negação.”
AN – Mas acabou por aceitar…
TP – “Sim. O médico disse-me claramente que havia risco de morte súbita. Falou-me de um familiar que tinha falecido… e eu sabia que não tinha muitas alternativas.”
AN – O que sentiu nesse momento?
TP – “É um misto de emoções… é difícil. E depois vem sempre aquela pergunta: ‘porquê eu?’. Sabendo o histórico familiar, sabendo tudo… mas perguntamos sempre.”
AN – O que a fez avançar com a decisão?
TP – “O meu filho. Só. Foi por ele que coloquei o aparelho.”
AN – Foi difícil aceitar o seu corpo depois da cirurgia?
TP – “Muito. É completamente absurdo… para uma mulher é muito constrangedor. Ver o nosso corpo alterado, ver-nos assim… é doloroso. Eu só consegui aceitar-me passado cerca de um mês.”
AN – Qual foi o momento mais difícil de todo o processo?
TP – “Foi o momento em que fui para a cirurgia. Pedi ao meu marido para me deixar à porta do hospital e ir embora. Não quis que ele ficasse. Foi muito doloroso para ele… e para mim também.”
AN – Teve medo nessa altura?
TP – “Sim. Porque naquele momento percebemos que podemos não voltar. Eu mantive-me forte o tempo todo, mas quando fiquei sozinha… é muito difícil.”
AN – E quando acordou da operação?
TP – “Acordei ainda meio sem perceber onde estava. Tentei perceber onde estava o aparelho… e depois quando me disseram que já podia chamar a família, eu disse: ‘eu não tenho ninguém lá fora’. Via pessoas com família à volta… e eu estava sozinha. E pensei: ‘foste tu que decidiste assim, agora tens que aguentar’.”
AN – A fé teve um papel importante?
TP – “Sim. Nestes momentos agarramo-nos sempre a alguma coisa. Até com o meu filho… foi uma forma de lhe pedir ajuda, de lhe dar força e de me dar força a mim.”
AN – O que descobriu sobre si com esta experiência?
TP – “Descobri que temos muita força interior que não exteriorizamos. Só quando passamos por momentos de dor é que percebemos a força que temos.”
AN – Mudou depois disto?
TP – “Sim. Talvez me tenha tornado uma pessoa mais fria… mas no sentido de dar mais importância àquilo que realmente importa.”
AN – A quem gostaria de agradecer?
TP – “À minha família, ao meu marido e ao meu filho… que é a base de tudo para mim. E também aos amigos e colegas, que estão sempre presentes e ajudam muito nos momentos mais difíceis.”
AN – Como gostaria de ser lembrada?
TP – “Como alguém alegre, brincalhona… que encara a vida dessa forma. Mesmo com tudo isto, isso ajuda bastante.”
